O que a China ensina para o varejo brasileiro?

Avatar
VTEX
23 jan 2020
Reading Time: 4 min

Em evento em Nova York, especialista convidada pela VTEX mostra que o mercado chinês pode ser uma grande inspiração para as empresas brasileiras

 

Um mercado formado por 1,8 bilhão de pessoas que está mudando dramaticamente. Um país no qual o dinheiro praticamente não existe mais e pessoas de todas as idades compram por meio de seus smartphones, smartwatches e até mesmo por reconhecimento facial. Um varejo em que as empresas estão utilizando intensamente os dados de seus clientes para obter mais informações e, com isso, entregar produtos, serviços e propostas de valor cada vez mais personalizadas. A China é a principal referência em inovação no varejo mundial.

O país é, porém, muito mais complexo do que parece ser quando olhado deste lado do mundo. “Realidade Aumentada, lojas do tamanho de quiosques que experimentam o Novo Varejo em múltiplos setores (de farmácias e alimentos a casas de karaokê), Inteligência Artificial e prateleiras inteligentes são alguns dos conceitos que estão ganhando espaço e os consumidores chineses têm mostrado muita disposição em experimentá-los”, comenta Wei Wei, fundadora da GSL Innovation e consultora especializada no mercado chinês.

Trazida pela VTEX para o Seminário Internacional de Varejo realizado pela BTR-Varese em Nova York no mês de janeiro, a consultora mostrou que a China tem sim inovações que estão muito além do que vemos no mercado brasileiro, mas também mostra que, nesse ambiente, mesmo gigantes como Alibaba e Tencent já vêm sendo ameaçados por novas empresas.

Confira alguns dos tópicos mais importantes da apresentação de Wei Wei:

 

1. Um varejo customer-centric

Embora utilize tecnologia de forma intensa, o varejo chinês é, em primeira instância, focado no consumidor. “A tecnologia é uma forma de entregar aquilo que o cliente deseja e obter dados sobre o público”, diz Wei Wei. “Com isso, as empresas conseguem ser muito mais assertivas na definição de sortimento, previsão de demanda e mesmo no desenvolvimento de respostas para as necessidades do público”, explica.

O uso de dados se reflete em lojas como a Hema, supermercado do grupo Alibaba, que, ao mesmo tempo em que entrega produtos para clientes em um raio de até 3km em menos de 30 minutos, conta com espaços de experiência, como restaurantes de frutos do mar (com caranguejos vivos). O sortimento e a localização dos pontos de venda são definidos em função dos hábitos dos consumidores do entorno, o que torna os supermercados muito mais próximos do dia a dia dos clientes.

 

2. Uma nação digital

Com 850 milhões de usuários de internet (61% da população), dos quais 99% acessam a rede a partir dos celulares e 75% fazem transações online, a China é o país mais conectado do mundo e um lugar de intensas inovações no mundo digital. Isso levou à criação de conceitos de negócios únicos, nem sempre replicáveis em outros lugares. Ainda assim, são um exemplo do que o varejo deverá vir a ser daqui a alguns anos.

 

3. Os gigantes digitais

Algumas empresas chinesas foram os disruptores de primeira onda, que criaram negócios digitais ao longo dos últimos anos e se tornaram conhecidas em todo o mundo. Alibaba, Tencent, Baidu, Xiaomi e JD não são somente plataformas de e-commerce ou varejistas omnichannel: elas são ecossistemas de negócios. “A estrutura dessas empresas se assemelha: no centro, negócios varejo, e-commerce e marketplaces. No exterior, mais de 400 empresas com soluções para as mais variadas necessidades dos clientes. E, como a cola que une esses dois mundos, diversos serviços entregues por várias empresas de cada grupo, em áreas como logística, serviços financeiros, mídia, serviços digitais e entretenimento”, explica Wei.

“A estratégia e a grande inovação dessas empresas é utilizar os dados dos clientes para entender quais são os serviços que podem gerar mais tração e manter o público atrelado ao ecossistema, gerando valor para todos os que estão envolvidos nela”, comenta. “Com o uso de IA, elas se tornam negócios melhores, mais inovadores e capazes de obter crescimento sem fim”, completa.

 

4. Os desafiantes que mudam o jogo

Quando se fala em Alibaba e Tencent no Brasil, a tendência é acreditar que não existe vida fora desses gigantescos ecossistemas digitais. Por incrível que pareça, não é assim: uma série de empresas, como Meituan, Didi e ByteDance, vem mostrando que é sim possível competir e desafiar os líderes. “Há muito espaço para que novas empresas aproveitem oportunidades ainda inexploradas”, diz.

Um exemplo é a ByteDance, que, com 800 milhões de usuários, está se aproximando do WeChat como plataforma líder em comunicação instantânea entre pessoas. Com 20% de seus usuários fora da China e um valor de mercado de US$ 75 bilhões (superior ao do Uber, por exemplo), ela não depende da infraestrutura ou dos ecossistemas das gigantes para crescer e prosperar. “A empresa nasceu em 2012 para oferecer serviços personalizados de notícias. A partir daí, analisa o comportamento dos clientes para conhecê-los cada vez mais. Foi uma questão de tempo para usar essa capacidade de conhecimento do público em outros negócios, como o app TikTok, que hoje está em 150 países, em 75 idiomas, e possui 500 milhões de usuários no mundo. “Uma vez que você tenha tantos usuários, é natural que passe a operar em muitos negócios, pois você conhece profundamente o público.

 

5. Lições para o mercado brasileiro

As razões para o sucesso tanto das gigantes chinesas quanto das novas (e também imensas) concorrentes são claras. “Elas focam em desenvolver, desde o início, tecnologias proprietárias que tragam uma diferenciação competitiva. A partir da solução das necessidades de um nicho, passam a entregar soluções de massa. E, por fim, dominam a arte de alavancar a presença do usuário, estimulando o fluxo entre diversos produtos de sua rede”, enumera a especialista.

Para o varejo, isso traz duas consequências: uma oportunidade e uma ameaça. “O futuro do varejo tem uma cara que nem sempre se parece com varejo. Há muitas possibilidades de crescimento gravitando ao redor de produtos e serviços que o varejo oferece hoje, mas também existem outros negócios que podem se aproveitar para ocupar espaços no varejo”, explica. “Quem usa bem os dados dos clientes para entender comportamentos, preferências e novas possibilidades de negócios integrados, vence no novo jogo do varejo”, finaliza Wei Wei.