Estratégia

A Potência do Ecommerce Chinês e Data Privacy

Luisa Motta
Luisa Motta March 5, 2021
A Potência do Ecommerce Chinês e Data Privacy

De que a pandemia do Coronavírus (COVID-19) está sendo um molde para o ecommerce mundial, não há dúvidas. Trata-se de um momento oportuno para promover cada vez mais a aproximação entre países, eliminando as fronteiras entre eles e entre empresas multinacionais.

Nesta seara, a China vem embarcando em uma estratégia quase que monumental para que o poder do seu comércio digital seja cada vez mais reconhecido, buscando mercados muito maiores do que os que delimitam o continente asiático. É curioso compreender como a engrenagem chinesa está funcionando frente ao cenário pandêmico, reforçando sua capacidade expansionista. 

Dentre os motivos que denotam o sucesso chinês, em uma terra com 900 milhões de usuários de internet, podemos citar:

  1. Uma comunidade altamente ativa que promove o ecommerce e o valoriza, como verdadeiro estilo de vida;  
  2. A velocidade da logística;
  3. A prevalência do celular em detrimento do notebook e computador, o que faz com que as pessoas comprem via aplicativo e em um só lugar.
  4. A valorização de livestreams. jogando luz às opiniões dos influencers: o chamado “live commerce”.

china eCommerce solution - china ecommerce market overview

 China Ecommerce solutions. https://www.tmogroup.asia/china-ecommerce-solutions/ 

Resultado: ⅗ dos maiores marketplaces do mundo estão localizados na China: Taobao, Tmall (ambos pertencentes ao Alibaba) e JD.com. 

O ponto alto do ano para o comércio digital chinês é o chamado “Single’s Day – 11.11”, maior que o Amazon Day e a Black Friday. Em 2020, por exemplo, contou com mais de 800 milhões de compradores, 538.000 pedidos por segundo no momento de pico e um total de 2.32 bilhões de encomendas processadas pela Cainiao Network, empresa de logística do Alibaba. Em questão de faturamento, mais de 470 empresas ultrapassaram um GMV de 14.9 milhões de dólares, incluindo: Adidas, Apple, Estée Lauder, L’Oréal, Lancôme e Nike. Em um outro nível comparativo, a projeção da Amazon para 2020 era de US$ 416,48 bilhões (globalmente), já o JD.com, segundo maior player da China, transacionou tanto quanto apenas em seu mercado nacional. Os dados foram apresentados por Colin Lewis – CMO na OpenJaw Technologies – na Ecommerce Live 2020, evento virtual voltado para os desafios do comércio digital (Fonte: https://econsultancy.com/how-does-the-ecommerce-experience-in-china-differ-from-the-west/)

Com uma classe consumidora muito consolidada e presente, qual o impacto global da realidade chinesa no ecommerce mundial?

De cara pode-se falar no grupo Alibaba, o qual entre 2017 e 2018 investiu mais de um bilhão de dólares no gigante indonésio Tokopedia, além de ter grande participação na empresa Lazada, presente no sudeste asiático – um dos grandes focos dos players chineses. Além da Alibaba Group, empresas como Tencent Holdings e ByteDance (A StartUp mais valiosa do mundo – criadora do TikTok) estão em um processo contínuo de expansão pelo sudeste asiático, principalmente para  Cingapura, como um meio de afirmação, especificamente, da sua capacidade de mercado global.

A União Europeia não ficou de fora e, por sua vez, assinou acordos de livre comércio com a Coreia do Sul, Japão, Cingapura e Vietnã. O comércio entre a Europa e a Ásia movimenta mais de um trilhão de dólares anualmente, conforme artigo publicado pela Nikkei Asia (Fonte: https://asia.nikkei.com/Spotlight/The-Big-Story/The-next-wave-of-globalization-Asia-in-the-cockpit)

Ecommerce Chinês e o Brasil

Visando novos caminhos para a Digital Silk Road (o projeto de expansão tecnológica com parcerias mundiais), a China busca, atualmente, um crescimento no seu mercado dando especial atenção à América Latina. No Brasil, por exemplo, percebemos uma grande crescente no volume de compras online, sendo um aumento de 47% no primeiro semestre de 2020 e tendo 7.3 milhões de pessoas que compraram pela primeira vez no ano passado, segundo a Ebit|Nielsen. Seguramente uma oportunidade para a expansão chinesa.

Vemos, assim, que o ecommerce brasileiro está tentando acompanhar os grandes nomes, principalmente no espectro de priorização de um ecossistema complexo, para que o crescimento apresentado em um cenário pandêmico possa continuar sendo realidade na pós pandemia. Deste modo, temos uma maior preocupação e investimento no que concerne aos pagamentos, plataforma, logística e atendimento. Como exemplo, temos Magazine Luiza, Via Varejo e B2W seguindo este caminho.

A VTEX não ficou de fora e integra esse cenário de evolução. Temos o case da Miniso, empresa que possui sede em Guangzhou e operação principalmente na China Continental. Após o anúncio do lockdown no México, a empresa asiática enxergou como única saída a implementação do ecommerce. Em apenas 5 semanas houve o kick off e o início da operação Omnichannel, tornando, novamente, a Miniso disponível para os clientes. Entretanto, por mais que haja um desejo incessante de crescimento por parte do comércio digital chinês no Brasil, existe ainda uma barreira na logística. Normalmente, pacotes comprados em sites chineses não tendem a chegar rápido, levando, normalmente, mais de 1 mês.

Em uma tentativa de melhorar esse cenário, a Aliexpress, por exemplo, passou a fretar três voos semanais para trazer mercadoria, reduzindo o tempo de entrega, além de ter uma interface maior com parceiros locais, ampliando a malha tecnológica nacional para otimização da logística. Como outra medida, podemos notar a implementação de atendimento humano em português, oportunidades de frete grátis e devoluções gratuitas acima de 10 dólares. Temos uma estimativa de que em 2020 o crescimento da Aliexpress tenha sido mais de 130%. O legado chinês ainda tenta incluir em terras brasileiras a popularização do “Single’s Day – 11.11”, do live commerce e do Omnichannel.

Yan Di – Diretor da Aliexpress no Brasil

A Evolução Conjunta: Ecommerce Chinês e Data Privacy

Em meio a parcerias e crescimentos exponenciais, um assunto importante tomou lugar no cenário chinês: as leis que regem a proteção de dados pessoais, tema atual e imprescindível. Países europeus cobraram da China posicionamento acerca das medidas que estão sendo tomadas para a segurança e proteção de dados, devido a dois fatores fundamentais: (i) maior tratamento de dados pessoais de cidadãos europeus na China; e (ii) a expansão e adoção da tecnologia chinesa na Europa, nos mais diversos setores, como telecomunicações, biotecnologia e logística comercial. Estamos de frente para um ponto nevrálgico e decisivo para a celebração de negociações.  

Em 2017 havia sido editada a Personal Information Security Specification (“PISS”), a GDPR chinesa. No entanto, foi apontada como sendo “Soft Law”, pela falta de autoridade que aparentava ter em casos concretos. Já em 2019, como forma complementar à autoridade da PISS, houve o anúncio do draft da Data Security Administrative Measures, para tratar do armazenamento, coleta, transmissão, processamento e uso dos dados no território chinês.

Olhando para o futuro, um importante boost será a Personal Information Protection Law (PIPL) que teve seu draft revelado em novembro de 2020, atuando juntamente com a Cyber Security Law (“CSL”). Uma vez que a lei começar a ser efetiva na China, iremos observar a aplicação de multas que podem chegar até 7.6 milhões de dólares. Além disso, serão passíveis de aplicação penalidades que vão desde o confisco de ganhos ilegais até a revogação de certificados para funcionamento da empresa.

Para fins de aplicabilidade, qualquer empresa que tenha negócios em solo chinês está suscetível a ser regulada pela PIPL, inclusive as brasileiras como a VTEX. Até empresas que processam dados de cidadãos chineses no exterior, mesmo que não possuam estrutura física no local, estarão embaixo do guarda-chuva desta lei. 

Importante ressalvar que, de acordo com o artigo 51 do draft, empresas estrangeiras que provêm serviço/produto para as pessoas na China precisam de uma agência local ou designar um representante dentro do território. Alguns pontos principais de adequação para as plataformas de ecommerce são:

  1. obtenção de consentimento explícito dos consumidores;
  2. realização de uma avaliação de impacto de informações pessoais;
  3. realização de uma avaliação de impacto na segurança aprovada pela autoridade competente; e
  4. obtenção de um certificado de proteção pessoal emitido pela autoridade.

Portanto, compreende-se que o ecommerce chinês está criando sua própria rota de comércio digital com a crescente entrada dos players nacionais em outros países, ao mesmo tempo em que faz com que suas estratégias comerciais sejam conhecidas e adotadas internacionalmente. Especificamente em relação ao Brasil, estamos de frente para o momento em que o modelo chinês já está sendo capaz de impactar a forma com que o ecossistema pensa e coloca em prática o ecommerce e, com isso, está sendo construído um novo estilo de vida. A expansão do comércio digital chinês se traduzirá na multiplicação da quantidade de informações que circulam diariamente entre vários países e o gigante asiático. Por isso, é necessária a  cooperação internacional visando a proteção dos dados dos consumidores e das empresas, gerando uma segurança que é sempre esperada e necessária no âmbito digital. 

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